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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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A revolta atrasada dos que se sentem traídos: o caso de Dilma Bolada

dilma bolada

Há casos históricos de “traições” que realmente impressionam. Pense, por exemplo, no escritor José Saramago. Ele defendeu o regime cubano de Fidel Castro por décadas a fio, usando sua fama e influência no campo da literatura para espalhar socialismo pelo mundo. De repente, a ditadura prende três indivíduos e Saramago, revoltado, declara seu “rompimento” com o regime. Uau! Aqueles milhares de cadáveres empilhados no paredão eram irrelevantes para o portuga!

Como o caso de Saramago temos vários outros. Escritores que se disseram “traídos” por regimes ditatoriais socialistas após milhões de mortes no currículo e muita miséria espalhada por aí. Em proporção menor, claro, foi o que aconteceu com o autor de Dilma Bolada, que declarou-se “traído” por Dilma quando esta resolveu aumentar a participação do PMDB nos ministérios:

O criador do perfil Dilma Bolada, no Twitter, o publicitário Jeferson Monteiro, rompeu com a presidente Dilma Roussef nesta quarta-feira. Ele fez críticas à presidente Dilma Rousseff em sua conta pessoal no Facebook. Na rede social, Jeferson, que costumava fazer postagens favoráveis à presidente no Twitter, disse que “Dilma não precisa de seu apoio nem o de ninguém que votou nela. Afinal, para ela só importa o apoio do PMDB e de parte do empresariado para que ela se mantenha lá onde está.” Jeferson acrecentou (sic) ainda que a presidente trocou o governo pelo cargo e citou uma música famosa, gravada pela sambista Beth Carvalho: “Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão.”

Não é fofo? Algum opositor mais pragmático poderá dizer: “Deixa quieto, Rodrigo, não detona o rapaz. Afinal, ele virou oposição agora também, e quanto mais gente atacar o PT, melhor para o país”. Pode até ser, mas não sou e nunca fui tão pragmático assim. Incomoda-me a falta de princípios nas pessoas. Tipo uma Marta Suplicy, depois de décadas no PT, bancar a inimiga número um de Dilma. Essas coisas, comigo, não colam. Prefiro cobrar coerência dos outros, pois a cobro de mim.

Então o rapaz dos pixulecos, que recebia até R$ 20 mil mensais para defender o governo Dilma, se sentiu traído agora? E qual o motivo mesmo? Ah, sim, Dilma concedeu mais espaço no governo ao PMDB e aos homens de Lula. Que traição imperdoável! Mas… e tudo o que foi feito antes? Então o “boladão” não se importava com o mensalão e o petrolão? Então ele não se importava com a fatia que o PMDB “diabólico” já tinha no governo? Então o estelionato eleitoral não lhe diz nada? Então a inflação de 10%, o desemprego crescente e a queda de até 3% do PIB são invisíveis?

A lista poderia continuar ad infinitum. Mas o ponto está claro: há gente que demonstra uma revolta um tanto atrasada em relação às supostas traições, não é mesmo? É, no mínimo, um efeito retardado espantoso. A menos que a traição de Dilma tenha sido parar de pagar o pixuleco. Como não busco votos, posso falar o que realmente penso: ou estamos diante de pessoas bem lentas, com dificuldade de raciocínio, ou estamos diante de pessoas que não mudaram o que pensam, apenas o senso de oportunidade (oportunismo, na verdade) em relação ao que pode ou deve acontecer.

Se Dilma afunda, então é preciso abandonar o barco. É a “ética” dos ratos no navio que naufraga, não a de seres humanos decentes que efetivamente se dão conta de um grave erro de conduta e assumem isso publicamente, para tentar se redimir do pecado. Há conversões legítimas, e há aquelas dissimuladas, falsas. Há muitos eleitores de Dilma com amnésia por aí, sumidos, envergonhados. Nem todos podem desaparecer no anonimato. Nós sabemos o que eles fizeram no verão passado. Resta, então, bancar a vítima e alegar traição. Mas Dilma e o PT já vêm traindo o Brasil há 13 anos!

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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