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Rodrigo Constantino
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Analfabetismo econômico da imprensa: mais inflação, moeda mais forte?

A tentativa de explicar qualquer movimento nos mercados é tarefa quase inevitável na imprensa, pois o público quer explicações até para o que pode ser aleatório. Mas é sempre algo arriscado. Ainda mais quando falta o básico de conhecimento aos jornalistas. O resultado pode ser uma manchete estranha como essa da Folha hoje:

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Reparem só na “lógica” desse raciocínio: o governo Trump será gastador e irresponsável, reduzindo impostos e aumentando gastos. Logo, isso vai produzir mais inflação. E, como resultado, os bancos centrais terão de aumentar juros. Portanto, isso vai fortalecer a moeda americana. Elementar, meu caro Watson!

Concluímos, pela “lógica” impecável, que governos perdulários e inflacionários levam ao fortalecimento de suas moedas. Percebem o absurdo da coisa? Claro, se as previsões anteriores tivessem se realizado e a vitória de Trump levasse ao pânico dos mercados, com forte queda nas bolsas e desvalorização acentuada do dólar, a manchete seria “dólar desaba por medo de governo Trump”.

Entenderam que direções diametralmente opostas podem ser “explicadas” pelo mesmo fenômeno, dependendo do interesse do jornalista? Quer dizer então que um presidente que vai aumentar gastos e inflação é tido como positivo para a própria moeda? Alguém precisa explicar o que aconteceu no Brasil, com o governo perdulário do PT produzindo gastança e inflação, e desvalorização do real…

Talvez o jornalista ou o “investidor” por ele entrevistado tenha pensado da seguinte maneira binária: alta de juros costuma fortalecer a moeda, logo, Trump vai gerar aumento nos juros e isso explica a alta do dólar. Só há um “pequeno” detalhe aqui: essa alta do juro seria, pela ótica do próprio jornalista ou investidor, fruto do aumento da inflação, ou seja, uma reação à perda de valor da moeda.

Subir juros como efeito da alta da inflação não precisa levar ao fortalecimento da moeda. Este depende, entre mil outros fatores, mais da taxa real de juros do que da nominal. O investidor não é trouxa. É o diferencial de inflação que importa em sua conta. Por isso a taxa de juros no Brasil é 14% enquanto a americana é zero, mas isso não impediu a valorização do dólar frente ao real.

Estamos num mundo muito estranho mesmo quando a valorização da moeda de um país é reportada como uma notícia ruim para a economia, como se fosse culpa, e não mérito, de um governante eleito. Imaginem a notícia: “Dólar desaba porque Trump foi eleito com promessa de cortar gastos”. Seria absurdo, óbvio. Como essa outra que vimos.

Se um governante age de forma irresponsável, subindo gastos de forma descontrolada e produzindo inflação, isso é ruim para a moeda do país, não algo positivo que leva à sua valorização. Duvida? Pergunte aos venezuelanos.

PS: Se quiser se aprofundar mais no tema para evitar ser enganado por esses jornalistas e até investidores analfabetos econômicos, recomento meu curso online “Bases da Economia“, pela Kátedra.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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