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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Apple > Bovespa: com a perda de metade do valor em dólares, todas as empresas brasileiras de capital aberto não valem uma Apple

Fonte: GLOBO

Fonte: GLOBO

Deu no GLOBO:

A crise que afeta o país, com seus desdobramentos sobre o crescimento da economia e o câmbio, fez com que a capitalização das empresas abertas brasileiras registrasse, em um ano, a maior queda entre os 20 maiores mercados acionários do mundo. Levantamento feito pelo GLOBO com base em dados financeiros da Bloomberg mostra que o valor, em dólares, de todas as ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) despencou pouco mais de 54%, de US$ 1,14 trilhão para US$ 518 bilhões, no período de 12 meses encerrado na última segunda-feira. Juntas, as Bolsas de todo o mundo registaram recuo bem menor, de 8,81% no período. O encolhimento fez com que o Brasil caísse da 12ª para a 15ª posição do ranking de maiores mercados de ações do planeta, sendo ultrapassado por Espanha, Suécia e Itália.

Para efeito de comparação, a Apple sozinha, com sua capitalização de US$ 640 bilhões — a maior do mundo — vale 23% mais do que todas as 359 empresas brasileiras negociadas na Bovespa.

O tombo na capitalização brasileira traduziu-se também em uma menor participação no mercado global de ações. Há um ano, o valor da Bolsa brasileira representava 1,72% dos US$ 66,45 trilhões em papéis negociados no mundo; hoje, a fatia é exatamente a metade disso, ou 0,86% da capitalização global de US$ 60,59 trilhões.

É realmente vergonhoso que uma empresa de tecnologia americana possa valer mais do que as 359 empresas brasileira de capital aberto em bolsa. Isso, além de envergonhar, representa um sintoma de vários problemas nossos. Falaremos de alguns abaixo.

Em primeiro lugar, o Brasil continua um país voltado para commodities, sem ter desenvolvido capital humano adequado para a era da informação. Como efeito disso, agrega pouco valor ao mercado global, e sua riqueza depende do preço desses produtos básicos, que, por sua vez, depende do crescimento chinês.

Antes que intervencionistas fiquem assanhados, a saída não passa por um “programa nacional de indústria” ou algo do tipo. O BNDES sob Luciano Coutinho selecionando os “campeões nacionais”, a criação da Sete Brasil para fornecer sondas para a Petrobras, entre outras medidas do governo petista, tiveram em mente esse objetivo, mas deu tudo errado.

Afinal, não será por decreto estatal, tampouco por meio de subsídios ou reservas de mercado, que o Brasil irá competir no topo da cadeia de criação de valor mundial. O caminho é menos burocracia, menos impostos, melhor infraestrutura, mão de obra mais qualificada, um mercado de capitais mais desenvolvido, e mais liberdade econômica, tudo aquilo que falta no país.

Em segundo lugar, o próprio mercado de capitais brasileiro é medíocre. Temos menos de 400 empresas de capital aberto, sendo que muitas sequer têm liquidez. Somos a sétima economia global, mas temos o décimo-quinto valor de mercado em bolsa. É absurdo! Por que isso acontece?

Precisamos, uma vez mais, olhar para onde escorregamos, não onde caímos. Na origem do problema, temos vários fatores, como o cultural, já que os brasileiros desconfiam do mercado de ações como se fosse um cassino, o efeito “crowding out” do BNDES, que dificulta a emergência de um mercado de capitais mais independente como fonte de financiamento das empresas, a falta de transparência e governança etc.

Nos Estados Unidos, quase todo empreendimento conta com a possibilidade de levantar recursos no mercado de capitais. Há fundos para todo tipo de perfil. É o capitalismo funcionando, com seu dinamismo e pulverizando o risco, tornando possível cada indivíduo ser sócio dos empreendimentos que prefere. A aposentadoria dos milhões de americanos está alocada nas próprias empresas. O capitalismo conseguiu aquilo que o socialismo desejava: tornou o “proletário” sócio do capital, dono dos negócios, parceiro na alegria do lucro (e na tristeza do prejuízo também, claro).

É por isso que tantas empresas no Vale do Silício nascem em garagens, com investimento inicial de módicos mil dólares, e depois se tornam gigantes bilionárias. Graças ao mercado de capitais bem desenvolvido, ao capital humano de boa qualidade, à confiança nas regras do jogo, na propriedade privada, enfim, graças ao capitalismo!

Por fim, essa perda de metade do valor em dólares é um indicador claro da severidade dessa crise petista, que fez com que todos os brasileiros ficassem bem mais pobres em relação ao resto do mundo. Isso se reflete no valor de nossos ativos, naturalmente. Se fica quase inviável para uma família de classe média curtir a Disney nas férias com o dólar a R$ 3,80, isso também significa que o valor das nossas empresas está muito menor em moeda forte.

O Brasil viveu um sonho até 2010, pois o crescimento chinês puxou a demanda e o preço das nossas commodities, enquanto o baixo custo de capital nos países desenvolvidos inundou nosso mercado com dólares, euros e ienes, em busca de oportunidades mais rentáveis (o tal “tsunami monetário”). Agora isso tudo se reverteu, a maré baixou, e vimos que nadávamos nus. O PT foi extremamente irresponsável na gestão da economia, fomentou bolhas de crédito, gastos crescentes, e não realizou uma única reforma estrutural que reduzisse o “Custo Brasil”. Deu nisso.

Agora estamos pagando pelos erros de ontem, e esse indicador isolado, de que a maior empresa americana, sozinha, vale mais do que todas as nossas listadas no Bovespa, ilustra com perfeição a desgraça na qual o governo petista jogou o Brasil. Éramos pobres que se julgavam ricos. Agora estamos ainda mais pobres, mas a realidade não pode ser mascarada por tempo indeterminado. Um dia a máscara cai.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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