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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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De JFK a Obama: a radicalização da esquerda americana

Kennedy, um patriota católico

Kennedy, um patriota católico

“Onde quer que a liberdade esteve em perigo, os americanos com um profundo sentimento patriótico sempre estiveram dispostos a encarar o Armageddon e desferir um golpe pela liberdade e pelo Senhor”.

“O caráter americano tem sido não só religioso, idealista, e patriótico, mas por causa deles tem sido essencialmente individual. O direito do indivíduo contra o Estado sempre foi um dos nossos princípios políticos mais queridos”.

“Devemos buscar o equilíbrio orçamental ao longo do ciclo de negócios com excedentes durante os bons tempos mais do que compensando os déficits que podem ser incorridos durante recessões. Sugiro que esta não é uma política fiscal radical. É uma política conservadora”.

“Munique deveria nos ensinar que temos de perceber que qualquer blefe será pago. Nós não podemos dizer a ninguém para ficar longe de nosso hemisfério, a menos que nossos armamentos e as pessoas por trás desses armamentos estejam preparados para dar suporte ao comando, até mesmo ao ponto final de ir à guerra”.

“Um mundo que lança fora toda moralidade e princípio – todo idealismo sem esperança, se quiser –  não é um mundo onde vale a pena se viver”.

“Hoje, as forças sinistras do comunismo estão trabalhando duro. A maior baluarte contra a propagação do comunismo é a força das democracias, onde são apreciados os direitos fundamentais da individualidade. Não pode haver nenhum compromisso com o comunismo ou qualquer outro ‘ismo’ que seja contrário aos direitos dos povos amantes da liberdade. Devemos apoiar os países que lutam contra o comunismo”.

“Por isso, é vital que nos preocupemos com a manutenção da autoridade das pessoas, do indivíduo, sobre o estado”.

“Chantagistas trabalhistas estão usando suas posições sindicais para a prática de extorsão, agitação de massas e suborno; ameaçando com greves, problemas no trabalho, violência física ou danos materiais para os empregadores que não conseguem dar-lhes pagamentos por baixo do pano, presentes pessoais, ou outras contribuições que os membros do sindicato nunca veem”.

“Esta não é uma luta pela supremacia das armas apenas – é também uma luta pela supremacia entre duas ideologias conflitantes; liberdade sob Deus versus uma implacável tirania sem Deus”.

Quem teria proferido tais palavras? George W. Bush? Ronald Reagan? Margaret Thatcher? Nada disso. São partes de discursos de John Fitzgerald Kennedy, um dos maiores ícones do Partido Democrata americano, e também dos “liberais”, lembrando que o termo, nos Estados Unidos, foi usurpado pelos “progressistas” de esquerda.

Estão todos esses – e muitos outros – trechos de discursos reunidos no livro JFK, Conservative, de Ira Stoll. Não são declarações fora de contexto, e sim parte essencial de quem era Kennedy, o primeiro presidente americano católico.

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Políticos podem adotar mensagens ambíguas, dependendo do ambiente, ou uma retórica que não condiz com a prática. Mas o que o autor mostra no livro, com grande embasamento e poder persuasivo, é que Kennedy era mesmo mais chegado ao conservadorismo do que ao pensamento “progressista” de esquerda.

Tanto suas falas como suas ações demonstram alguém anticomunista até o último fio de cabelo, extremamente religioso e com convicção na importância da clareza moral, defensor de redução de impostos e do limite do estado, com um patriotismo inquestionável e disposto a enfrentar com coragem os inimigos da liberdade. Stoll resume:

Os cortes de impostos de Kennedy, sua contenção dos gastos domésticos, a sua preparação militar, sua política econômica pró-crescimento, sua ênfase no livre comércio e num dólar forte, e sua política externa conduzida pela ideia de que a América tinha uma missão dada por Deus para defender a liberdade, tudo faz dele, pelos padrões tanto de seu tempo como de nossa própria época, um conservador.

A escolha de figuras importantes com viés mais conservador para áreas críticas de seu governo é outra evidência disso. A obsessão em tirar o ditador Fidel Castro do poder para dar liberdade aos cubanos, culminando na fracassada invasão da Baía dos Porcos, idem. Compare-se a isso a postura de Barack Obama hoje, aproximando-se do regime dos irmãos Castro, trocando longos apertos de mão com o tirano Raúl, criando laços de um relacionamento suspeito.

O contexto era outro, o da Guerra Fria, não resta dúvida. Mas não importa: Kennedy era linha dura, sabia que só a força por trás e a ameaça crível de seu uso podiam intimidar regimes nefastos, e não tinha ilusões quanto a tais regimes. Entre Chamberlain e Churchill, Kennedy estaria com o último, Obama com o primeiro. A pusilanimidade, o relativismo moral, o diálogo utópico com quem quer apenas nos destruir, essas nunca foram as características de Kennedy, mas são as de Obama.

“Sejamos claros de que nunca vamos virar as costas para nossos amigos leais em Israel, cuja adesão ao caminho democrático deve ser admirada por todos os amigos da liberdade”, disse Kennedy. Obama, hoje, desperta a desconfiança legítima dos israelenses, cientes cada vez mais de que precisam se defender sozinhos contra seus inimigos islâmicos, já que o governo americano se afasta gradativamente da necessária objetividade moral na região.

“Eu não acredito que Washington deve fazer para as pessoas o que elas podem fazer por si mesmas através do esforço local e privado. Não há mágica nos dólares de impostos que foram para Washington e voltaram”, disse JFK. Sua crença na iniciativa privada como locomotiva do progresso era clara. Já Obama adota o discurso de Thomas Piketty, focando apenas nas desigualdades, e reduz o mérito individual de quem teve sucesso na vida, apelando para um coletivismo tosco.

O legado de Kennedy foi disputado por muitos, de ambos os lados, e a tese de Stoll é que a esquerda Democrata tentou pintar um presidente que não existiu, forçando a barra em sua suposta inclinação ao “social” via mais estado. Discursos acabaram cortados, ignorando-se passagens marcantes que modificavam totalmente o sentido atribuído pelos “liberais”. Livros foram escritos, museus adaptados, tudo para vender um JFK “progressista”, que não bate com a realidade.

No fundo, Kennedy não ligava muito para os rótulos, mas também não se importava em ser atacado por certos “liberais” da esquerda. Ele estava mais preocupado com o que funcionava e o que era certo. Acabou sendo assassinado por um marxista que tinha ficado alguns meses na União Soviética e tentado ir para Cuba.

Kennedy era alvo constante de críticas dos “pacifistas” e jornalistas de esquerda, que não suportavam sua visão clara da Guerra Fria: “O inimigo é o sistema comunista em si, implacável, insaciável, incessante na sua sede para dominar o mundo”.

A ironia é que foi Nixon, o Republicano, quem adotou medidas realmente “progressistas”, aumentando o déficit fiscal, controlando preços, expandindo a intervenção estatal na economia e reaproximando os Estados Unidos de regimes comunistas, como a China, além da retirada das tropas do Vietnã, à contramão do que Kennedy fez, uma vez que considerava fundamental evitar que a região fosse toda tomada pelos soviéticos.

Foi preciso surgir outro Republicano, Ronaldo Reagan, para resgatar boa parte do legado de Kennedy, o Democrata. Reagan inclusive chegou a citar várias vezes JFK em seus discursos, como quando defendeu a redução dos impostos. Em seu mais famoso discurso, conclamando Gorbachev a derrubar o Muro de Berlim, Reagan começa mencionando Kennedy, que também esteve na Alemanha e disse que todos os defensores do comunismo deveriam visitar sua capital, para ver o que os soviéticos fizeram na prática.

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Comparar Kennedy a Obama é constatar o quão mais radical se tornou a esquerda no país, a ponto de um senador efetivamente socialista, Bernie Sanders, disputar com cerca de 30% de apoio as prévias do Partido Democrata. O líder socialista Norman M. Thomas disse, num discurso de 1948: “O povo americano nunca vai adotar conscientemente o socialismo, mas sob o nome de ‘liberalismo’, adotará cada fragmento do programa socialista até que um dia a América será uma nação socialista sem saber o que aconteceu”.

Com Obama, sua profecia ficou mais perto de se concretizar. Kennedy, se concorresse hoje, seria acusado de “reacionário” ou até mesmo de “fascista” por uma esquerda cada vez mais radical, desconectada com os principais valores que fizeram da América a nação que é. Kennedy respeitava e admirava o legado dos “pais fundadores”, citando com reverência Thomas Jefferson. Hoje o presidente americano repete que não há nada de excepcional em seu país, e que deseja mudar a nação em sua essência.

Se Kennedy estivesse vivo, provavelmente torceria para que algum conservador do Partido Republicano vencesse em 2016, quando tanta coisa está em jogo para o futuro da nação. Bill O’Reilly, o polêmico apresentador da Fox News, disse outro dia que seus pais votavam no Partido Democrata, mas que era algo totalmente diferente. Ele está certo: a esquerda americana mudou muito, está bem mais radical, com viés quase socialista mesmo.

Que o legado dos “pais fundadores”, presente no espírito de Kennedy, possa sobreviver, para que os Estados Unidos continuem sendo o farol da liberdade no mundo e o líder dos países livres, contra tantos inimigos que desprezam as liberdades individuais e desejam destruir todos os valores ocidentais. Infelizmente, eles contam com defensores dentro da América, bárbaros do lado de dentro dos portões da civilização. E quando a América dorme na vigília da liberdade, os demônios acordam e ficam mais ousados.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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