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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Fascínio por Fidel é resquício da Guerra Fria e de um antiamericanismo infantil

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Como pode um tirano sanguinário como Fidel Castro despertar tanta reverência assim, como a que vemos na imprensa após sua morte? O fanatismo ideológico é a explicação mais óbvia, claro. Muitas pessoas estão presas ainda na mentalidade binária da Guerra Fria. Ironicamente, são as mesmas que reagem quando alguém fala de comunismo ridicularizando o outro como se ele ainda vivesse aprisionado a essa época. A incoerência, portanto, é total.

Essa turma se deixa levar por um romantismo idiota, por uma visão tosca de mundo onde Davi desafia Golias, e este, o maior e mais poderoso, precisa sempre ser visto como o inimigo cruel e implacável. O “imperialismo estadunidense” representaria, então, as forças malignas do capitalismo insensível, enquanto o comunismo dos guerrilheiros barbudos seria o “sonho igualitário”. Desafiar essa dicotomia patética já desperta a fúria desses crentes cegos.

Para essa gente toda, os fatos não importam, somente a narrativa. E esta já os seduziu faz tempo. Como crianças que se apaixonam pelo mocinho da história, os comunistas – que como podemos ver ainda existem aos montes – olham para Fidel e só enxergam isso: um “igualitário” corajoso que enfrentou um império poderoso. Crer nesse conto de fadas é coisa de idiota, sem dúvida, mas é praticamente impossível despertar esse sujeito de sua fantasia somente com argumentos e razão.

Ainda assim, nós tentamos, pois nunca se sabe quando alguém poderá perceber o absurdo de suas crenças entranhadas por um processo de lavagem cerebral. E por isso destaco dois ótimos textos em meio a tanto lixo constrangedor publicado na imprensa nesses dias. O primeiro deles é de Helio Gurowitz, no G1. Ao notar pelos comentários, fica claro como muitos desses crentes abobados leem o site, mas se recusam a absorver a lógica. Diz o autor:

Não, Fidel Castro não foi um personagem complexo, polêmico, controverso ou qualquer outro eufemismo que se escolha para absolvê-lo. Fidel era simples. Foi, tão-somente, um tirano sanguinário, o ditador mais longevo na história da América Latina.

Seu governo foi responsável, somando apenas os registros comprovados pelo projeto Cuba Archive, por no mínimo 7.062 mortes até o final de 2014, dentre as quais 3.116 execuções por pelotão de fuzilamento, 1.166 assassinatos extrajudiciais e 1.010 mortes em tentativas de fuga da ilha.

É um número pequeno perto das estimativas de organizações de defesa dos direitos humanos, que falam em no mínimo 15 mil assassinados pelo regime castrista. Na América Latina, a ditadura sanguinária mais próxima do regime de Fidel em Cuba foi o Chile de Pinochet, onde os registros oficiais falam em 3.065 mortos – embora o governo tenha reconhecido mais de 40 mil.

Isso não inclui a censura à imprensa, a perseguição aos homossexuais, a crueldade com os balseiros, a tortura nas prisões, a proibição da internet e o empobrecimento da população – forçada a trabalhar num regime econômico fechado, estatista e dependente da boa vontade de aliados de ocasião, primeiro União Soviética, depois Venezuela.

[…]

A única explicação plausível para o fascínio renitente com Fidel está num fóssil da Guerra Fria, sobre o qual se assenta até hoje a disputa política na América Latina. Se algo, além da busca pelo poder a todo custo, definia a ideologia de Fidel, foi a oposição visceral aos Estados Unidos. Ele não aprovou nem mesmo o restabelecimento recente de relações, promovido por seu irmão, Raúl Castro, e pelo presidente Barack Obama.

[…]

Pois é o anti-americanismo tosco, nada mais, que move a simpatia de tanta gente por Fidel. Não apenas líderes como o finado Hugo Chávez ou o nosso Luiz Inácio Lula da Silva. Mas escritores como Gabriel García-Márquez, cantores como Chico Buarque, jornalistas como Fernando Morais, atores, professores universitários, cientistas – todos de indiscutível excelência em suas áreas de atuação, todos seduzidos pela lábia carismática do tirano cubano.

Em termos econômicos ou mesmo sociais, Cuba é um exemplo patético. Em termos políticos, tudo o que se espera agora é o fim da ditadura. Cubanos precisam viver num regime de liberdades plenas, democracia, com eleições, imprensa livre e economia de mercado. Nunca é tarde para começar. O povo cubano, culturalmente tão próximo de nós, só tem a ganhar. Precisará agora da ajuda de todos – sobretudo dos Estados Unidos.

São palavras tão óbvias que realmente só podem ser ignoradas por quem é vítima desse antiamericanismo patológico e sequer é capaz de perceber. O sujeito olha Miami, depois olha Cuba, e ainda consegue acreditar que é o segundo que tem o melhor exemplo a dar? Ou então resolve culpar o embargo econômico, nada mais do que a proibição de empresas americanas de praticar comércio com a ilha após seu regime encampar empresas e apontar mísseis nucleares para a Flórida? Ora, mas essa mesma turma não acusa a globalização de ser uma exploração velada dos pobres pelos ianques capitalistas?

O outro bom artigo é de Fernando Schuler na Época. O autor volta nas origens de Fidel, que se mostrava alguém sedento por poder e violência desde cedo, sempre mascarando tais sentimentos com o discurso nobre de igualdade e liberdade. Mas o que marca sua vida é mesmo a insensibilidade para com os outros, o desejo de concentrar todo o poder, de mandar, de matar. Escreve Schuler:

No poder, Castro enuncia a equação demiúrgica que lhe permite prosseguir no comando da Ilha, indefinidamente: “a revolução é a fonte de todo direito”. A revolução como fonte do poder; o partido, como condutor da revolução; o “líder máximo”, por sua vez, como condutor do Partido. A fórmula é banal, usada e abusada pela tradição revolucionária, mas sem dúvida eficiente. Ao contrário do que ocorre nas democracias constitucionais, em que a legitimidade é dada pelo sufrágio, e o poder limitado por regras, em um sistema de pesos e contrapesos, a fonte da legitimidade revolucionária reside na história. A vitória, em um passado místico, pela força das armas. Vitória que logo se faz em dobro, quando o exército castrista, já bem munido de armamento soviético, derrota a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, por parte de exilados cubanos mal preparados, com apoio da CIA. A partir daí, a guerra é contra o “grande império do norte”. Contra o “bloqueio”. O enredo da Guerra Fria se completa. Ele funciona em todos os arrestos, serve como desculpa para toda a forma de violência e supressão de quaisquer direitos. Revive dia a dia, mesmo quando o regime vive seu declínio, como se viu no caso do menino Elian, em 1994. Quanto ao poder, não obedece a freios. Fidel foi um curioso personagem hobbesiano, bem sucedido, no que se propôs a fazer. Possivelmente como nenhum outro líder político do último século.

O Fidel revolucionário segue o figurino clássico. Em primeiro lugar, é implacável. Desde os campos improvisados de treinamento para a guerrilha, ainda no México, impõe a obediência absoluta e a prática dos justiçamentos. Tribunais improvisados, nenhum direito à defesa, a última palavra com o “comandante”. Soube se cercar de um punhado de jovens dispostos a tudo, fieis e talentosos. A começar pelo irmão, Raul, precocemente comunista, tendo muito jovem, ainda antes de Moncada, visitado o bloco soviético; Camilo Cienfuegos, Célia Sanchéz, Ramiro Valdez, e o mais ordodoxo e violento de todos, espécie de místico da revolução, Ernesto Guevara. Soube também se livrar de qualquer um que lhe atravessasse o caminho, o que podia significar a mais leve oposição. Foi assim com Camilo, morto em um mal explicado acidente aéreo, ainda no primeiro ano da revolução. Foi o caso emblemático de Huber Matos, o “professor”, herói da Sierra Maestra, que passaria os vinte primeiros anos da revolução no presídio da Ilha da Juventude, e depois seguiria a Miami, como exilado e opositor ao castrismo.

[…]

Fidel expressou como poucos, na época moderna, o paradoxo, ou o mistério, da ideologia: a brutal ausência de empatia ou consideração humana, travestida do mais alto sentido de generosidade. Do exercício permanente do duplo sentido, da mentira mais absurda, ainda que sedutora.

Quem quer efetivamente conhecer Fidel Castro não pode ter sentimentos ambíguos quanto a este personagem que não tem nada de complexo, pois sempre foi um bruto em busca de poder por meio da violência, nada mais. Um thug, como dizem os americanos, tão odiados por essa massa de manobra.

Se você se vê diante de alguém que consegue falar do “outro lado” de Fidel, de sua “determinação”, de seus “sonhos”, de sua “coragem”, saiba estar na presença de um ser desprovido de capacidade racional, tal como os fundamentalistas islâmicos ou os nazistas alucinados.

Ninguém falaria do “outro lado” de Hitler, ou se o fizer, como já fez Lula, então é prova de sua própria psicopatia. Nada, absolutamente nada justifica um Hitler, como nada justifica um Fidel Castro. Foram monstros assassinos, frios e cruéis, implacáveis, dispostos a praticar genocídio para permanecer no poder. Quem alivia a barra desses tiranos só para alimentar seu ódio e sua inveja aos americanos precisa de uma terapia urgente, pois sofre de caso agudo de patologia. Aos que ainda estão dispostos a conhecer os fatos, fica uma lista recomendada de leitura:







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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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