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Rodrigo Constantino
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Joy: o nome do sucesso e do empreendedorismo

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Por Bourdin Burke, publicado pelo Instituto Liberal

A empresária e apresentadora norte-americana Joy Mangano teve sua vida retratada pelo diretor David O. Russell em 2015, em uma trama que emula o labirinto atribulado e cheio de percalços que costuma permear o caminho daqueles graças a quem, hoje, a maioria de seis bilhões de habitantes da terra pode usufruir de um padrão de vida superior àquele desfrutado pelos mais abastados aristocratas do século XVIII: os empresários que produzem bens de consumo em massa.

A trajetória da protagonista ilustra com rigor os elementos que permitem o enriquecimento individual e de uma nação: a possibilidade de agregar valor a matérias-primas por meio de ideias inovadoras. No caso em questão, plástico e algodão viraram um instrumento (um simples esfregão de cozinha) que melhora a vida de muitas pessoas, na medida em que proporciona praticidade e economia de tempo, a um custo que cabe no bolso de praticamente toda a população – graças também ao desenvolvimento recente de métodos de produção em série e à evolução constante dos meios de transporte e logística.

O advento de uma inovação, pois, gera não apenas novos produtos, mas também novas empresas (que irão atender às necessidades da companhia principal detentora da invenção revolucionária, como marketing e outras atividades-meio) e várias novas indústrias, produzindo riqueza que, durante cada etapa do processo produtivo, será distribuída por toda a economia.

Tanto o lampejo intelectual propriamente dito quanto a viabilidade de colocá-lo em prática são fatores sem os quais a economia de um país será fadada a ser uma eterna exportadora de commodities. Portanto, a valorização do conhecimento em uma determinada cultura (obrigado por nada, Paulo Freire), aliada àliberdade para empreender formam uma combinação capaz de elevar a qualidade de vida de todos os cidadãos, especialmente daqueles menos favorecidos.

A escalada social perpetrada pela personagem principal, aliás, seria proeza irrealizável antes do advento do capitalismo. Na época em que títulos de nobreza valiam mais do que o mérito (antes da revolução industrial), o status de uma pessoa permanecia inalterado por toda sua existência – como ainda ocorre em países de economia planificada, como a Índia. Joy não se torna a “rainha dos esfregões” porque herdou tal condição, mas porque se preocupou com as necessidades e desejos dos outros. E assim que ela não mais reunir condições de prestar a seus clientes um serviço melhor e de mais baixo custo que o oferecido por um eventual concorrente, perderá a coroa com certeza.

Ademais, trabalhadores são pagos de acordo com o que produzem – ou seja, conforme a produtividade marginal da empresa na qual laboram. Se um empregado conseguia produzir X em um posto de trabalho essencialmente manual, e hoje produz 3X graças à adoção de soluções tecnológicas, esta ampliação na produção possibilitará um acréscimo na remuneração deste empregado. E tanto mais fácil será para o empregador implementar tais aprimoramentos quanto menos burocracia estatal e impostos estiverem entre suas preocupações diárias.

Em países ricos, em que os trabalhadores fazem uso de máquinas e bens de capital tecnológico de última geração em suas atividades, eles conseguem atingir uma maior produtividade, o que lhes permite, inclusive, trabalhar menos.  Já nos países em desenvolvimento, que não disponibilizam tais meios de produção mais eficientes para os obreiros (o que faz com que eles sejam menos produtivos), não resta alternativa senão trabalhar mais para atingir a mesma produção alcançada por um trabalhador de um país desenvolvido. Eis porque (entre outros motivos) a qualidade de vida de um trabalhador da Alemanha supera a de um brasileiro por muito. E aí está uma boa razão para que inovações sejam sempre fomentadas – tais como a testemunhada no filme.

Todos os desafios enfrentados por Joy fazem parte da biografia da maioria dos empreendedores (pelo menos daqueles que não são apadrinhados pelo BNDES nem possuem laços com governantes): convencer investidores da exequibilidade da ideia (eis aqui a importância do capital poupado); conseguir produzir dentro de patamares que permitam retorno financeiro para o investidor e reinvestimento constante (caso contrário, a empresa corre o risco de se tornar obsoleta e insolúvel); lidar com a teia de legislações que regem a atividade econômica (no roteiro em questão, resta clara a importância de proteger o direito intelectual, como forma de estimular pesquisas e avanços tecnológicos); levar ao conhecimento dos potenciais consumidores os predicados do bem ofertado; superar traições de competidores e dentro da própria sociedade (e aqui reside a relevância de um sistema judicial célere e que proporcione segurança jurídica).

Chama a atenção, por sinal, o quanto alguns membros da família de Joy atrapalham sua jornada. No clássico “A Mentalidade Anticapitalista”, Ludwig Von Mises define muito bem este tipo de sanguessuga (sob a alcunha de “primos”) que se presta tão somente a tornar ainda mais árduo o processo de emancipação e de manutenção do patrimônio amealhado pelo empreendedor: “Os “primos” recebem seus rendimentos da firma ou empresa. Mas são estranhos à vida de negócios e nada sabem sobre os problemas que o empresário deve enfrentar. São educados em modernas escolas e faculdades, cujo ambiente é marcado por um desprezo arrogante referente ao mecânico enriquecimento. Alguns deles passam o tempo em clubes, boates, apostam e jogam, divertem-se e farreiam, chegando à devassidão. Outros, amadoristicamente, ocupam-se com pintura, literatura ou outras artes. Por isso, a maioria é de pessoas desocupadas e inúteis.”

Ou seja, não é nada incomum que filhos e parentes de “capitalistas” (como se todos nós, que fazemos trocas voluntárias, todos os dias também não o fossemos) acabem desprezando o capital que assegura suas vidas pacatas – como bem elucidou Rodrigo Constantino em seu Best-seller A Esquerda Caviar. Não convém olvidar que Dilma Rousseff era filha de um comerciante de classe média alta, e o resultado de seu desprezo pelo trabalho do pai, que chegou ao Brasil fugindo de um regime comunista, todos nós conhecemos – e sentimos seus efeitos na pele até hoje.

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Afora esse invento, Joy criou ainda diversos outros produtos, como cabides que não ocupam espaço no roupeiro, malas com compartimentos específicos para acessórios, óculos de leitura vendidos em kits, panelas feitas de material ecológico, dentre outros. Ela hoje acumula o registro de mais de 100 patentes.

Tal empreitada, no entanto, não a impediu de ser mãe e criar dois filhos, mesmo em meio a tantas dificuldades. E o mais importante: por não fazer parte de nenhum grupo “merecedor” de tratamento diferenciado da sociedade (as famigeradas minorias), ela precisou mostrar do que era capaz, mais de uma vez, sem receber privilégios estatais. Qualquer semelhança com o tratamento dispensado a brasileiras como Joice Hasselmann, cuja demissão da revista Veja foi celebrada por grupos de Esquerda – os quais, em seguida, precisaram amargamente assistir a ascensão meteórica de sua carreira solo de repórter – não é mera coincidência: pessoas que demonstram não precisar do Estado para subir na vida (nem demandam cotas de qualquer espécie) não servem à “causa” socialista, e não fazem jus à “proteção” de feministas e demais grupelhos.

Enfim, os riscos e incertezas pelo caminho do empreendedorismo sãos muitos e variados, e o final nem sempre é feliz. Mas as chances de sucesso melhoram bastante quando o talento é reconhecido e valorizado. Este, aliás, um divisor de águas no filme: quando o personagem de Bradley Cooper aposta suas fichas em Joy. E aqui vale ressaltar: ele não o faz por se tratar se uma mulher bonita, mas porque percebeu estar diante de alguém com fibra e disposição para alcançar grandes feitos (e, claro, auferir lucros, satisfazendo consumidores e mantendo-os voluntariamente fiéis à marca patrocinada).

Pessoas com estômago para desempenhar papéis como estes (na vida real) não nascem a cada cinco minutos, e devem(riam) ser valorizadas e tratadas com deferência, e não como exploradoras (adjetivo que cabe bem melhor ao Estado intervencionista). Jennifer Lawrence foi laureada pela academia de Hollywood por sua interpretação sendo indicada para a estatueta de melhor atriz, mas tenho certeza que cada brasileiro que se esmera diariamente tentando erigir uma empresa (desde os microempresários que o fazem por necessidade em face do desemprego em alta, até aqueles que alavancam o desenvolvimento de regiões inteiras) deveria ser igualmente premiado – especialmente com mais liberdade econômica, uma vez que, desta forma, tanto trabalhadores como consumidores (os quais são, em verdade, as mesmas pessoas) seriam beneficiados. Quem sabe até sobraria uma grana para ir ao cinema…

Sobre / 

Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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