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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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O copo vazio da utopia. Ou: Demétrio Magnoli x Verissimo: a esquerda que pensa e aquela que só mente

Dois assassinos frios e cruéis: eis um fato, não uma opinião.

Dois assassinos frios e cruéis: eis um fato, não uma opinião.

Luís Fernando Verissimo está de volta de suas férias. Você logo sabe pelo cheiro podre que o jornal emana na página de Opinião. Lá está ele, o assassino da Velhinha de Taubaté quando tinha seus camaradas do PT no poder, a tecer elogios ao tirano Fidel Castro, ainda que com ares de “isenção”, e logo depois a meter o pau em Donald Trump. O leitor fica com a nítida sensação de que, se o ditador cubano divide opiniões sinceras, o magnata americano é uma unanimidade: alguém muito pior, claro!

Verissimo faz as velhas concessões patéticas de que Fidel, ao menos, focou no social e conquistou avanços na educação e na saúde, algo que somente pessoas desprovidas de qualquer conhecimento ou caráter faria. Eis a forma acanhada que um socialista utiliza para, no fundo, bajular um monstro assassino que destruiu uma nação inteira e, com ela, a esperança de todo um povo:

Primeiro, Fidel. Eis um assunto sobre o qual é impossível ter uma opinião só. Você pode admirar a revolução que derrubou um ditador corrupto e instalou um governo socialista que priorizou a saúde e a educação do povo, além de resistir a anos de bullying do seu vizinho americano, ou lamentar que os mesmos guerrilheiros que incendiaram a imaginação do mundo com sua vitória adotassem um regime totalitário, que prendia opositores e desrespeitava direitos humanos. O entusiasmo com Castro e sua revolução durou das primeiras notícias da insurreição até as primeiras notícias das execuções no paredón. Muitos na esquerda justificaram os excessos e mantiveram seu entusiasmo, outros se desiludiram, outros ficaram firmemente em cima do muro. As conquistas sociais em Cuba só poderiam ter acontecido sob o governo forte de um comandante único, ou não? De qualquer maneira, foi-se uma das grandes personalidades do mundo, não importa que opinião — ou que opiniões contraditórias — se tenha dele.

Felizmente, há vida inteligente e honesta na esquerda intelectual. Se Verissimo resolve enaltecer as “conquistas” de Fidel, que ele não sabe se seriam possíveis sem a “mão de ferro” do comandante, Demétrio Magnoli preserva a verdade dos fatos e mostra, em sua coluna, quem foi de fato esse tirano idolatrado pela esquerda jurássica – inclusive por muitos tucanos da velha guarda. E aproveita para bater nos “jornalistas”, que fingem não perceber o ambiente de terror totalitário que impede qualquer opinião sincera dos “entrevistados”. Diz Demétrio:

Visitei Cuba em 1994, no auge do Período Especial, o termo orwelliano escolhido pelo regime castrista para batizar a crise trágica derivada da implosão da URSS. Casualmente, encontrei-me em Havana com uma ex-aluna, que estava furiosa com um motorista de táxi atrevido o suficiente para queixar-se do governo. A jovem brasileira, encantada com o mito da Revolução Cubana, pensava em denunciar à gerência do hotel (isto é, na prática, ao governo) o taxista que “manchava” a “imagem de Cuba”. Lembrei-me do episódio acompanhando a cobertura da morte de Fidel Castro. Com honrosas exceções, a imprensa prestou lealdade ao ícone revolucionário, virando as costas, em indisfarçável desprezo, aos cubanos comuns.

Os jornais encheram-se de declarações de estadistas, inclusive de nações democráticas, prestando homenagem a uma figura que, “embora controvertida”, teria desafiado o imperialismo, promovido a soberania de Cuba e oferecido justiça social a seu povo. Nas capas e nos textos internos, sobraram palavras épicas, especialmente “História” e “Revolução”, que costumam ganhar o adorno da inicial maiúscula. Na TV, de correspondentes brasileiros, ouvi panegíricos a Fidel que seus próprios aduladores cubanos já têm vergonha de entoar. Tanto quanto os estadistas, os jornalistas beberam avidamente no copo da utopia, enterrando a realidade factual sob pilhas espessas de sentenças ideológicas.

[…]

Os repórteres fingiram não ver o medo — e se recusaram a espiar dentro dos lares. Na segurança dos espaços privados, longe dos ouvidos de vizinhos nem sempre confiáveis, pronunciaram-se frases inconvenientes, abriram-se garrafas de rum, alguns até mesmo brindaram. Os jornalistas deveriam saber que Cuba, afinal, não é o equivalente de Fidel.

As lições sobre o medo estão à mão, em incontáveis relatos. Um exemplo é suficiente. O dissidente soviético Natan Sharansky tinha 5 anos quando morreu Stalin. Seu pai explicou-lhe, então, “que Stalin era uma pessoa horrível, que matou muitas pessoas”, mas pediu-lhe a maior discrição: “Faça o que todo mundo fizer”. Natan obedeceu. “Fui para a escola e chorei junto com todas as crianças e cantei com todas elas as músicas que diziam quão grande foi Stalin”. A dissociação entre o gesto público e o privado, entre o que se diz e o que se pensa, é uma marca inconfundível da vida cotidiana nos regimes totalitários. Sharansky: “Isso é como funciona a mente de um cidadão leal, você faz tudo o que te mandarem fazer. E, ao mesmo tempo, você sabe que tudo é mentira.”

Que diferença para os comentários de Verissimo, logo acima no mesmo jornal. Demétrio preserva a honestidade intelectual, e por mais que discordemos de várias coisas, algo natural sendo ele alguém de esquerda, posso respeitá-lo pela coragem de atacar os ídolos falsos do socialismo.

Já Verissimo representa a hipocrisia da esquerda caviar, a falsidade de quem sabe manipular fatos para enganar trouxas, uma pessoa dissimulada que, quando não está criando histórias engraçadinhas sobre o cotidiano, está a serviço da doutrinação ideológica, ou fazendo prefácios para “pensadores” do porte de um Gregorio Duviver. Ou seja, é a decadência em pessoa!

Todos aqueles que usaram a morte de Fidel para elogiar o socialismo, qualquer parte que fosse, mostraram-se mentirosos e foram à contramão da História, não aquela em que seus professores marxistas acreditavam, cujo destino inexorável seria o socialismo, mas a real, uma coletânea de fatos que refuta qualquer outra definição para Fidel que não a de um monstro.

Não se trata de mera opinião. Não é algo aberto a debates. É um fato. Como é um fato que Hitler foi um monstro. O copo da utopia secou, está vazio. E a essas viúvas socialistas, resta apenas mentir, e mentir, e mentir…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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