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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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O Fed subiu a taxa de juros e o tom: prova de seu viés político? E agora?

O Federal Reserve finalmente optou pela alta nas taxas básicas de juros (Fed Funds Rate), e Janet Yellen resolveu subir o tom na mensagem sobre as perspectivas de 2017 também. Agora já se espera uma sequência de três aumentos, em vez de dois, no ano que vem. O Fed estava claramente “atrás da curva” (“behind the curve”), ou seja, mantendo a taxa de juros em patamar muito baixo por tempo demais, apesar dos dados econômicos sugerirem a necessidade de aumento, assim como a Taylor Rule.

Andre Leite, da TAG Investimentos, fez o seguinte comentário:

O que achamos relevante da comunicação do FED, já que o aumento para 0.50-0.75 era amplamente esperado? O FED nos seus pontinhos já prevê 3 aumentos em 2017, eram apenas 2 antes, por ora o destino dos juros será 1.25-1.50%. O FED ainda trabalha com o PIB no range 1.9%-2.3% em 2017.  Algumas boas casas já trabalham com algo mais perto de 2.7%-3.0% com estímulo fiscal. Isso implica que em uma economia com pouca ociosidade o FED poderá ter que rever os seus pontinhos ainda mais para cima, caso a inflação acompanhe esse aquecimento sem capacidade ociosa.

Na entrevista coletiva, foi onde [Yellen] efetivamente gritou, vejamos;

  • Economia está forte, mercado de trabalho forte;
  • A meta de inflação é 2%;
  • Estímulo fiscal não é necessário para o pleno emprego (já está quase lá);
  • Faremos ajustes na política monetária na medida em que aprendemos sobre a política econômica do novo governo;
  • Não sou a favor de rodar uma economia em alta pressão;
  • Sou a favor da independência do FED;
  • Eu declino de dar conselhos de política econômica ao presidente Trump;
  • Não está olhando para um eventual novo mandato, está focada para cumprir o seu termo de 4 anos;
  • O FED não está atrás na curva;
  • Não sou a favor de relaxar a regulação dos bancos, exceto os menores e regionais;

Resumo:  Com a eleição de Trump, como era de se esperar, o FED mostrou os dentes (3 aumentos em vez de 2 para 2017) e deixou claro que a meta é de 2% para inflação e que se Trump rodar a economia superaquecida o FED irá se ajustar e reagir de acordo. Com isso deveremos ter uma reprecificação nos próximos dias de dólar mais forte (tanto DXY quanto contra emergentes). Hoje mais cedo soltamos uma nota estranhando o USDBRL nos R$ 3.30 neste cenário externo e interno.  A curva do tesouro americano também deverá trabalhar em patamares maiores, com o 10Y trabalhando acima de 2.50%, mais perto de 2.60%-2.70%. Olhando para o xadrez, não seria de todo estranho termos um Trump inaugurando o seu termo de forma mais cuidadosa, dado que o FED mostrou os dentes.

Uma das leituras possíveis, sem dúvida, é que Yellen elevou o tom porque teme uma política fiscal expansionista de Trump. Mas que soa estranho ela mostrar os dentes logo depois da eleição, na primeira reunião, isso soa. Eis uma interpretação alternativa: o Fed sabe que está “atrás da curva”, que abusou demais da conta de sua política monetária expansionista, mas o fez mesmo assim por não ser tão independente na prática, por ter tomado partido, por ser politizado e ter desejado a vitória do Partido Democrata. Será possível?

Sim, possível é. Pelo Taylor Rule, que historicamente se mostrou um bom guia para a política do Fed, a taxa de juros já poderia estar perto de 4% ao ano! Agora que Hillary Clinton perdeu, o Fed estaria correndo atrás do prejuízo, usando como pretexto as políticas anunciadas – e nem praticadas ainda – por Trump? O gráfico do Fed Funds Rate, a Selic dos americanos, mais parece um eletrocardiograma de um defunto! São anos e anos de taxa NULA! Isso produz bolhas artificiais, como bem sabemos. Será que a decisão do Fed era somente econômica mesmo?

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O próprio Trump diz que não, cansou de acusar Janet Yellen de manter a taxa baixa por razões políticas. Verdade ou não, o fato é que a credibilidade do Fed está em xeque, o que é sempre perigoso, e a tendência será ele aumentar a taxa de juros para resgatar alguma confiança dos mercados. Se isso será possível em meio a essa enorme dependência dos mercados por estímulos, tal como um viciado em heroína precisa de doses diárias da droga só para não cair em depressão total, isso é outra questão, que vamos descobrir em breve.

Para o resto do mundo, o que isso pode significar é fluxo invertido de dólares, ou seja, a retirada de recursos por parte dos grandes investidores e especuladores, o contrário do “tsnumani monetário” de que Mantega e Dilma “reclamavam”. Vão culpar Trump, claro, em vez de o próprio Fed, frouxo demais na era Obama, ou os próprios países emergentes, que se tornaram muito dependentes desse fluxo, e demasiadamente endividados. Mas chorar de nada vai adiantar. Será preciso, mais do que nunca, fazer reformas estruturais para tornar os fundamentos domésticos mais sólidos e atraentes.

Atenção: não servem “pacotes” mixurucas e pontuais, como esse anunciado hoje. É preciso fazer urgentemente as reformas estruturais que reduzirão o tamanho do estado. Ou isso, ou a mudança na tendência da política de juros do Fed vai machucar para valer…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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