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Por que Lula está certo ao falar em “queremismo”?

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Por Lucas Berlanza, publicado pelo Instituto Liberal

Em mais de um veículo relevante, como UOL, Exame, Estadão e Jornal do Comércio, encontramos esta semana basicamente a mesma notícia: Lula vê “queremismo” e diz que será candidato.

Acreditando nas pesquisas – frisamos, sempre duvidosas, como já estamos “carecas de saber” – que mostram ainda índices respeitáveis de popularidade de seu nome, o ex-presidente Lula estaria reafirmando que a Lava Jato tem excessos, destacou que as delações já reveladas e ainda por vir impactam “todos os partidos” e que isso tudo, junto a um insucesso do governo Temer por produzir resultados rápidos de melhora econômica, desencadearia um movimento “queremista” desejoso de seu retorno ao poder. Não acredito e não quero acreditar nesses números, embora não me negue a admitir que ainda existem órfãos do lulismo no país. Contudo, preciso reconhecer que Lula, se foi ele mesmo a usar a expressão, nunca foi tão feliz em um comentário quanto quando batizou o suposto desejo de seu retorno ao poder de “queremismo”.

A expressão “queremismo” tem seu lugar tradicional no vocabulário histórico-político brasileiro. Entre 1937 e 1945, o Brasil viveu sob o tacão de uma completa e sórdida ditadura, o Estado Novo, capitaneado por Getúlio Vargas – que, na realidade, já estava no poder desde antes, a partir de 1930. Mediante o populismo, o arbítrio, a censura e o controle da propaganda como nunca antes visto, Vargas dominou o país e anestesiou em tristes e consideráveis quantidades as consciências brasileiras. Quando o Brasil batalhou na Segunda Guerra Mundial contra a tirania nazi-fascista na Europa, os grupos militares e algumas expressões da sociedade civil experimentaram a contradição em que a nação se encontrava, ao lutar pela liberdade humana no exterior enquanto consagrava a tirania em seu próprio território. A pressão por uma Constituinte surgiu.

Apesar disso, foi necessária uma pressão militar para que Getúlio saísse do poder e a Constituinte de 1946 acontecesse. Trabalhistas, comunistas, movimentos populares se manifestaram desejando a sua PERMANÊNCIA. Queriam que, no mínimo, o ditador – que deveria ser PUNIDO pelo seu incessante desprezo por quaisquer liberdades constitucionais – fosse candidato à presidência em uma eleição. Esse movimento, que queria a continuidade de Getúlio, com toda a ditadura, com todo o autoritarismo, com todo o cerceamento da liberdade e da oposição, foi o que ficou conhecido, justamente, como “Queremismo”. O Queremismo, naquele momento, fracassou em atingir o objetivo imediato, mas obteve um sucesso definitivo: o Estado Novo acabou, porém seu autor permaneceu ileso, apenas precisando passar um tempo em sua fazenda em São Borja; através do PSD e do PTB, a estrutura de poder forjada dentro do regime permaneceu no protagonismo da política do país, totalmente viciada, e o populista gaúcho voltou à presidência apenas cinco anos depois. Muitas características do Estado Novo permanecem a atrasar o Brasil até hoje – afinal, como diria Carlos Lacerda, o Brasil precisava passar por uma “desvarguização”, tal como a Alemanha de Hitler passou por uma “desnazificação”, e isso infelizmente não ocorreu.

Pois muito bem: isso prova que a comparação de Lula não poderia ser mais justa. Em 1945, anestesiado, ludibriado ou, é claro, mal-intencionado, um contingente da população brasileira cerrou os olhos à moral, ignorou princípios e valores supremos, abandonou a razão e desejou que a ditadura fosse premiada. É exatamente o que querem os supostos “queremistas” de hoje, ao desejarem o retorno triunfal de Lula da Silva. Quem o deseja não se importa com o desenho tirânico de poder que o Partido dos Trabalhadores arquitetou, com sua aliança ideológica e obtusa com os mais sórdidos autocratas do continente, com os escândalos de corrupção e com todas as denúncias de crimes obviamente capitaneados pela figura esfarrapada daquele líder sindicalista que acreditou ser o dono do Brasil – assim como Getúlio parecia se julgar. Não; prefere devaneios, prefere jogar ao léu os valores mais essenciais apenas para seguir alimentando um mito e uma ideia que já apodreceram.

O Queremismo de Vargas e o Queremismo de Lula são, portanto, bem dignos de ostentar o mesmo nome. Esperamos, porém, que este último vá além do primeiro… Que não atinja, também, o seu objetivo, e não devolva Lula a um cargo que jamais deveria ter ocupado, o que lançaria sobre o Brasil teia incalculável de vergonha; mas que, para além disso, seu personagem central seja, ao contrário de Vargas, definitivamente sepultado, sem qualquer chance de estabelecer o paradigma político-cultural do futuro. Merecemos mais do que isso.

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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