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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Temer nos “protege” de café bom e barato

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Por Ricardo Bordin, publicado pelo Instituto Liberal

Deu no Antagonista hoje mais cedo:

“Michel Temer decidiu suspender a medida que autoriza a importação de café verde pelo Brasil. Ontem, como mostramos, parlamentares ‘invadiram’ o gabinete do secretário de Governo para cobrar justamente isso.

Parlamentares ‘invadem’ gabinete de Imbassahy

Deputados capixabas e mineiros ‘invadiram’ o gabinete de Antonio Imbassahy, secretário de Governo, para barrar a importação de café.
O Espírito Santo, por exemplo, é o segundo maior produtor de café. Os parlamentares do estado estão indignados com Blairo Maggi porque, na avaliação deles, o ministro da Agricultura “ignorou pareceres de estoques” ao autorizar importação de café do Vietnã.
Imbassahy prometeu recomendar a Michel Temer a suspensão do processo.”

Então vejamos: segundo consta, já haveria “café demais” em nosso país, e permitir a entrada de mais toneladas deste produto oriundo do exterior seria prejudicial ao Brasil, na medida em que causaria perdas aos produtores nacionais, os quais geram empregos e pagam impostos aos fiscos locais.

Será mesmo? Vejamos o que tem a dizer Ludwig Von Mises sobre a alegação de “regulação de estoques” aventada pelos empresários ávidos por protecionismo:

“No mercado de uma sociedade capitalista, o homem comum é o consumidor soberano, aquele que, ao comprar ou ao se abster de comprar, determina em última análise o que deve ser produzido e em que quantidade”.

Aplicando tal pressuposto ao caso concreto, temos que os “pareceres de estoques” deveriam ser elaborados, em verdade, por cada indivíduo que toma café. Caso, em algum momento, a oferta venha a superar a demanda, a concorrência na atividade econômica irá reduzir os preços, ampliar o leque de opções e elevar a qualidade, na competição pelos clientes. Diante de tal cenário, alguns fornecedores podem, sim, se retirar do setor, mas de forma voluntária, por julgarem não mais ser vantajoso, e não por força de lobbies e decretos.

A fatura desta reserva de mercado obtida pelos cafeicultores capixabas e mineiros será quitada, pois, por cada brasileiro que aprecia a bebida, notadamente em decorrência da quebra da safra provocada pela recente seca em regiões produtoras, que encareceu o café.

Não creio que seja do interesse do povo brasileiro arcar com desfalques sofridos por empresas acometidas por contingências inerentes ao risco de investir. Um empreendedor precavido lança mão de estratégias para cobrir eventuais revezes, como contratar apólices de seguro ou diversificar suas atividades. Correr para o gabinete dos burocratas requerendo barreiras ao livre mercado é atitude típica de quem só quer saber de embolsar lucros e “socializar” prejuízos – ainda mais quando se trata de um segmento da economia altamente subsidiado e agraciado com isenções tributárias. Assim até eu.

Se o Executivo quer socorrer um grupo de empresários brasileiros qualquer, ajude todos de uma vez então, cortando impostos, burocracia, regulações e taxa de juros – sem gerar uma bolha,  bom que se diga. Enfim, pare de atrapalhar.

Um empreendimento que transforma cem reais de insumos em cinquenta reais de faturamento está destruindo riqueza ao invés de criá-la, e deve, caso não logre reverter o quadro com meios próprios, ser incorporado por outras companhias mais hábeis no beneficiamento e distribução desta matéria-prima, para que então, aí sim, passe a ser gerado valor a partir daqueles bens de capital. Salvar empresários insolventes com recursos obtidos por meios de impostos, endividamento estatal ou impondo barreiras à importação equivale a usar parte do seu salário para manter um carro velho que já mal sai do lugar. Melhor é passar para frente logo.

Se o Vietnã ou qualquer outro fornecedor do mundo “ousar” agradar mais nossos paladares e bolsos, que seja: este é o princípio da divisão do trabalho aplicado ao comércio global, o qual elevou sobremaneira o padrão de vida da população mundial e permitiu que cada nação se especializasse em determinados nichos. Ou não: quem sabe com estrangeiros “fungando no cangote” os produtores brasucas não buscariam formas de cortar custos e melhorar as características do café que nos servem atualmente – e os vietnamitas ficariam a ver navios, sem nem mesmo despertarem preocupação de nosso empresariado.

De uma forma ou de outra, seríamos nós a ditar quantos e quais empreendedores deveriam servir nossa mesa matinal. Quando o governo intervém em meio a este processo, ele subverte toda sua natureza, provocando desordem nos agentes econômicos, cujos efeitos serão fortemente sentidos nos indicadores financeiros enquanto esta manipulação perdurar.

Alguém deve estar pensando, a esta altura, que os dividendos obtidos pelos asiáticos com as vendas no Brasil voltariam para aquele continente, e que isso seria, a priori, ruim. Acontece que se todos os países do mundo fossem pensar desta forma, os ingleses passariam a vida só comendo batatas com peixe, e os franceses apenas queijo com vinho. Cada um na sua, mas com algumas coisas em comum. Só não me pergunte como o maior produtor mundial desta commoditie agrícola consegue ser tão dependente de estímulos dos cofres públicos e de canetadas de políticos. Deve ser a força do hábito mesmo, da cultura paternalista.

Quanto aos postos de trabalho supostamente extintos na cadeia produtiva do café brasileiro, na eventualidade do produto estrangeiro cair nas graças dos consumidores, estes seriam facilmente compensados pelo aumento do poder de compra e da capacidade de poupança proporcionados pela diminuição da conta do supermercado. Se as pessoas gastam menos na compra do mês com o “pretinho básico”, podem comprar mais um litro de leite ou um quilo de arroz – fomentando, destarte, as indústrias de lacticínios e arrozeira. Ou até mesmo podem economizar a diferença- melhor ainda.

Bola foríssima de Temer, que, com essa medida, só fortaleceu o “capitalismo de estado” em vigor no Brasil e condenou-nos a continuar degustando apenas o refugo do café de boa qualidade que costuma ser exportado para mercados mais abertos – e, por conseguinte, mais exigentes.

Partiu tomar um “chafé”. É o que tem pra hoje – e assim será enquanto seguirmos tão fechados em nossos casulos em que meia dúzia de beneficiados adora viver.

Neste contexto, impossível não recordar da anedota de Bastiat: vamos proibir o sol de brilhar, devido sua concorrência desleal com os fabricantes de velas…

Sobre / 

Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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